Um lado obscuro na história da comunidade gamer

Temos uma variedade de que vai de ameaças de morte a trabalho escravo. Escolha qual dos lados obscuros mais te assusta!
Marcelo Hillesheim
Publicado em 23/10/2019 22:19

Toda grande comunidade, onde existe uma enorme variedade de opiniões, acaba-se por nascer dois pontos extremos que podem dar origem a ações não muito agradáveis que acabam manchando o nome da comunidade em questão. Com a comunidade gamer não é diferente. E o lado obscuro da nossa história é mais assustador do que você pode imaginar.

No início um dos nossos piores inimigos era mídia, com suas matérias que incorporaram a imagem de um demônio aos vídeo games, associando os games aos mais diversos crimes. Os anos passaram e os games online surgiram fazendo brotar o mais diverso público dentro da comunidade gamer. Foi onde as garotas passaram a surgir em transmissões online e os gamers “bonzões” com suas testosterona a mil viram nicks e personagens femininos vencerem seus heróis digitais. O tempo passou, arrumamos empregos e muitos de nós fomos para empresa de desenvolvimento de games esperando viver um sonho e em várias partes do mundo se depararam com um cenário assustador.

A Mídia

Por muitos anos nós fomos atacados das mais diversas maneiras através da mídia, que sempre usavam desculpas do tipo “Atirador que matou 77 na Noruega usou games para planejar ataque”. A manchete é real e a ideia da pessoa também pode ser real, porém ele pode muito bem ter se influenciado pelo cinema, pelas novelas na tv, por vídeos que assistiu na internet, até mesmo por notícias com alto nível de utilização da técnica “clickbait” para chamar atenção e ganhar visualizações. Mas, imagina se a mídia seria capaz de uma influenciar alguma tragédia, não é mesmo?

Agora você se pergunta, se a manchete fala a verdade, onde está erro? O erro está em acusar os games de terem causado um problema mental em uma pessoa como essa. Isso por que alguém que comete uma ação dessas precisa só de um empurrãozinho, uma ideia para executar esse tipo de tragédia. Pessoas que cometem esses atos estão com seu estado mental comprometido e qualquer coisa pode incentivá-las a atos cruéis e mortais. Como mencionei antes, até mesmo a ideia de um outro assassino publicada em uma matéria online ou em uma revista pode sim desencadear essas ações. Até mesmo a cena de um desenho animado é capaz de fazer isso. Por que você acha que não fazem mais desenhos infantis como o pica-pau que jogava pessoas de penhasco presas em bigornas ou com uma dinamite? Era divertido, era, para pessoas como eu e você que somos normais, para as pessoas com tendências psicóticas, eram ótimas ideias.

E aí que mora o perigo. Acusar os games de serem os vilões em casos de chacina  e outros crimes é ridículo! Eu nunca me tornei um piloto de corrida profissional por detonar em Gran Turismo, nem mesmo quis tacar fogo em pessoas por jogar Final Fantasy (é uma menção meio cruel, mas curtos mages), assim como você não se tornará um atirador profissional por jogar Call of Duty (Especialmente se for mobile). Esses são tipos de entretenimentos, não são treinamentos de nenhum tipo. Mesmo o Gran Turismo sendo um simulador ultra realista de corrida, esqueça, ele não te tornará um corretor profissional, se você quiser ser um, vai ter que correr atrás, ter aulas, orientações como qualquer um que for iniciar e te garanto que se você chegar lá e disser “tenho mais de 1200 horas em Gran Turismo 6”, eles não deixarão você pular as primeiras aulas. Muito provavelmente os jornalistas sabem muito bem disso, mas ignoram em nome da visualização de suas matérias tendenciosas.

Nossa comunidade não se resume nessas tragédias, somos milhões de gamers e temos sim uma rica diversidade. É uma riqueza de variações muito alta e isso no leva a outros pontos muito importantes. Aprenda, gamers não são somente homens, héteros, brancos e se pagam como “perfeitos”, temos sim gays, bissexuais, trans, pessoas de todas as cores, etnias, formas, alturas e sexos. Sim, garotas também jogam video games.

A Comunidade

Um dos preconceitos que mais odeio dentro da nossa comunidade é com relação às mulheres. Se uma mulher entrar num jogo online e matar seu personagem, ou é um homem se fazendo de mulher, ou está usando cheat. Ela não pode por si só ter habilidades melhores que muitos homens gamers, não é mesmo? Pode sim! Aceite, meu camarada, você foi derrotado por uma garota, já que isso importa tanto pra você, aceite a realidade. Mas se eu pudesse dar uma dica a um gamer desses, eu pediria pra ele aprender a ver gamers como gamers, não como homens, mulheres, adultos, idosos, crianças, gays ou héteros. São gamers. Se você perdeu, você perdeu para um outro gamer, não para qualquer um desses rótulos. Gamer é gamer acima de qualquer característica.

Se você achou isso uma falta de bom senso e está em pé, procure um lugar pra sentar, porque piora.

A conexão que criamos com os games pode acabar sendo surreal. Eu me desesperei horrores em Detroit: Become Human, chorei com o de Crisis Core: Final Fantasy VII  e com o final de Final Fantasy XIII-2 também (Ainda hoje não me conformo), vibrei horrores com mais 30 minutos de animação no final de Lightning Returns: Final Fantasy XIII. Essas conexões são valiosas e muitas vezes despertam sentimentos que não sabíamos que existiam. É compreensível que os personagens acabam por ganhar um peso maior dentro da nossa vida e é óbvio que é chato vê-los sendo transformados ou interpretados de uma forma tão diferente que sentimos que aquele não é mais aquela persona com que nos conectados em games anteriores, mas nada, NADA justifica ameaçar a vida de desenvolvedores, diretores e outros artistas por tentarem algo novo. Sim, isso ocorreu.

Em 2013, a Capcom lançou uma nova veia na série Devil May Cry, contratando a renomada empresa Ninja Theory para produzir um novo game na série, com um novo estilo e obviamente, um novo Dante surgiu, mais jovem, mais magro, menos imponente e com ar um tanto gótico. A comunidade gamer que apreciava o Dante ferveu em ódigo e isso refletiu diretamente na Capcom e na Ninja Theory, não em forma de críticas negativas, mas sim em forma de ameaça de morte. Não foi uma, não foram duas, foram várias, o suficiente para alertar a todos.

Já em 2018 a empresa Square Enix começou a receber várias ameaças através de mensagens feitas por um homem chamado Hiratsuka, de 40 anos que vive no Japão. As ameaças continuaram em 2019 onde, para a proteção da sua equipe de desenvolvimento, a Square Enix entrou na justiça pedindo a prisão do ameaçador. O motivo foi ele ter perdido dinheiro em um dos games da Square Enix.

Em uma das suas mensagens ele mencionou “Vocês querem uma repetição da Kyoto Animation?”. O estúdio Kyoto Animation, também no Japão, foi alvo de um ataque terrorista que incendiou os escritórios e matou mais 30 pessoas. O estúdio é responsável por produções de animações vendedoras de muitos prêmios como Full Metal Panic, Lucky Star, The Melancholy of Haruhi Suzumiya, Violet Evergarden, Beyond the Boundary e A Silent Voice.

Temos esses casos onde a vida dos desenvolvedores foram coladas em risco devido a raiva da comunidade gamer, mas as vezes, não somos nós, players da comunidade, os vilões. Às vezes eles estão dentro das próprias desenvolvedoras.

Os Estúdios

Por volta de Abril deste ano (2019), ex-funcionários da NetherRealm, responsável por games como Mortal Kombat e Injustice, resolveram abrir a boca e falar sobre o trabalho abusivo que a empresa praticava.

Um dos funcionários mencionou ter sido questionado se estava pronto para morrer pelas horas extras que teria de fazer. Uma ex-analista de qualidade da NetherRealm confirmou que existiam esses tipos de problemas. Basicamente a empresa fazia horas extras direto. Você não era questionado se faria, mas era avisado quando iria pra casa.

Um dos desenvolvedores mencionou que em 3 anos trabalhando para empresa recebeu 1% de aumento e nenhum bônus. 

Em uma entrevista a outro ex-funcionário, ele relatou quase ter morrido depois de passar 3 meses dormindo cerca de 4 horas por dia por que o resto do tempo era fazendo os trabalhos da empresa. Como se isso não fosse o suficiente, alguns profissionais chegavam a receber U$ 11.00 a hora, o que é ridículo.

Outro problema dentro dos estúdios estavam voltados ao sexismo. Muitos homens humilhavam, em especial desenvolvedores, tinham apelidos para todas as mulheres que trabalhavam lá e nenhum deles era carinhoso ou amigável. Todos com representatividade pejorativa. Infelizmente é o problema que mencionei anteriormente, o preconceito contra mulheres no universo gamer é enorme.

A empresa escreveu uma carta pública onde mencionou que esses casos seriam todos investigados e que preza pelo respeito, porém em outra entrevista foi revelado que até mesmo o alto escalão da NetherRealm sabia dos apelidos e nunca fez nada sobre o assunto.

Além da desenvolvedora de Mortal Kombat, nós temos outras grandes empresas do mundo dos games enfrentando o mesmo tipo de acusação, como por exemplo Rockstar, BioWare, Epic Games, Gearbox Software e Obsidian. Todas essas empresas possuem casos de exploração de seus empregados com relação a horas extras, atrasos e pressões excessivas. A maioria delas já possuem casos abertos publicamente na justiça. Esses casos vêm tanto de chefes de departamento quanto de colegas de trabalho entre si e sim, são todos eles gamers de uma forma direta e profissional. Triste, mas é uma realidade.

Todos nós jogamos por algum motivo, seja para nos entreter com algo, conhecer novos mundos ou sair da realidade repugnante que vivemos. Faça valer a pena, não importa o motivo. Se algo mudou ao ponto de você passar a odiar, procure novas experiência. O universo dos games é gigantesco e existem muitas histórias e conceitos que valem a pena desbravar. Não tenha ações negativas. Permita-se ser apresentado ao novo e se você ainda assim não encontrar nada que apetece seu paladar gamer, ainda temos o fator replay. Sempre vale a pena reviver boas histórias já contadas ou boas experiências já vividas. E manter o respeito com outros gamers, seja online ou seja no trabalho é o básico. Extenda isso a todos ao seu redor e se afaste de quem não o fizer.

Junte-se a nossa comunidade! Aqui nós queremos só os melhores gamers, aqueles que respeitam a toda diversidade que nosso universo tem a oferecer!

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